Wednesday, July 12, 2017

Frida e eu

Com elegância vivemos nossos amores e desejos e seguimos, como as palomas que não se preocupam com o risco de fogo que fica por onde se passa. Este risco que dilui suave como lágrima de deusas etéreas. Temos boca para beijos e temos o olhar negro de graúna, ou da jabuticaba, ou de mulheres que levam a amplidão das noites coaguladas dentro de um espaço onde viver pode doer, mas ao mesmo tempo, expande a beleza de tocar as rosas escondidas nos desertos densos onde nada pode durar mais que quatro horas sem secar ao sol.
Em alguns dias não queremos nada ou ninguém ao redor, então enleamos o silêncio como um rito ao enlear nossos xales em nossos ombros. Ancoramos no espaço onde existimos únicas e onde nem o amado mais amado penetra. Neste lugar onde ficamos com o invisível e nos ausentamos para tocar alguma aurora reticente onde apenas moram as mulheres de Sol.

Temos cabeça, mãos, pés e coração. Qual no quadro de Klee podemos nos desdobrar e romper-nos e espalhar-nos pelas superfícies. Parecemos bonecas dos natais antigos às quais desmembrávamos curiosas para saber mais, seguimos desmembrando-nos para depois juntar-nos. Mesmo nossa Arte espalha-se em fragmentos. Minha Poesia – toda ela – é fragmento meu. Para formar um quadro inteiro com meu corpo e coração e mãos e lábios, há que se ler todos os meus versos. Tuas telas são pequenas tiras de uma história e para saber tudo é preciso colocá-las em sequencia para ler tua vida e saber tudo. Não se sabe Frida a partir de um único quadro. 

Bárbara Lia
(de um livro em construção)

 Has a head hand foot and heart - Paul Klee