Sunday, February 11, 2018

Meu encontro com Jamil

Eu tinha certeza que o taxista era Jamil Snege. Tarde de verão e o agito da cidade antes do carnaval. Você está em uma rua qualquer do Centro da cidade, você vai outra tua qualquer e você precisa ir de táxi, ainda que perto, ainda que ninguém entenda. O pé dói. Ponto final. O trajeto curto demais torna tudo mais surreal. Quero perguntar algo e temo que quebre o encanto. A camisa é tal qual aquela da única vez que o vi, saindo com um amigo da Livraria Ghignone, fumando um cigarro, a outra mão no bolso. Lembro que estanquei o passo em plena Rua das Flores e pensei: é o escritor. Fiquei com aquela imagem, com aquela vontade de não ser tão tímida, de atravessar metade da rua, falar com ele. Mas ele seguiu conversando e eu segui minha vida. Não demorou muito para saber de sua morte. Agora eu tinha certeza que era o Jamil Snege ali a me conduzir, com a mesma roupa, a mesma silhueta calma. Tive medo que ele começasse a praguejar contra o Lula ou falar de religião, como fazem os taxistas. Implorava aos céus que ele não quebrasse o encanto e me fizesse crer que nas tardes de verão Jamil Snege desce à terra e conduz, de forma invisível, os escritores invisíveis da sua Curitiba. "Como tornar-se invisível em Curitiba?" - Snege sabia. Para minha alegria e êxtase ele diz apenas: o sol está mais quente hoje. Sim, tudo está mais hoje, para minha alegria eu pude manter aquela fantasia. Quase disse a ele sobre sua célebre dedução que - para tornar-se invisível em Curitiba basta ter talento - quase disse: nada mudou... Mas, apenas desci e o vi desaparecer, a camisa azul clara, os cabelos brancos e esta certeza de que a magia existe, a gente a encontra ali, na próxima esquina, ao acenar para um táxi.

Bárbara Lia no verão de 2018

mínima homenagem ao Wilson Bueno

Thursday, February 01, 2018

Não o convidei ao meu corpo - Bárbara Lia





Não o convidei ao meu corpo
Bárbara Lia
Romance - Autoficção
174 páginas
Editora Kazuá
Projeto Gráfico: Evandro Rohden e Ticiane Magalhães
Arte da Capa e Miolo: Telas de Paul Klee e Projeto Gráfico da Kazuá inspirado na Street Art reproduzindo telas de Klee. Um luxo!


Prefácio, orelhas e contracapa: Luciana Cañete, Leonardo Paiva, Maria Alice Bragança e Ana Lúcia Vasconcelos. Foi como se um maestro (Espírito da Arte?) ordenasse que a partitura assim fosse. É destas pessoas mui caras para mim o som das palavras que cantam (e contam) sobre Lily Elm. O que afinal diz "Não o convidei ao meu corpo"? O que Lily tem a comunicar com seu espírito livre? Quem é Lily? 
No prefácio a poeta Luciana Cañete escreveu: 
"Lily se parece com Frida, Lily se parece comigo e com tantas mulheres que aceitam o destino de não aceitar. Que se incomodam ao invés de se acomodar e vão construindo trilhas entre escombros." 


Projeto gráfico belíssimo da equipe da Kazuá (Evandro Rohden e Ticiane Magalhães), a partir de 19 telas de Paul Klee, que escolhi enquanto ia tecendo as narrativas. Eles embarcaram nesta nave misteriosa e bela da criação para compor uma obra de arte que enleia Artes Plásticas e Literatura.

fragmento - página 08:


"Ignorei por décadas o visitante obscuro. Eu perseguia tudo que tinha luz bastante para obliterar a negra presença. Foi tão grande o desprezo que dispensei ao intruso que esqueci que me habitava. Quem dera passar pela vida sem notar sua presença, ignorando cem por cento sua audácia pútrida. Tivesse morrido aos quarenta e sete anos, qual Frida Kahlo, eu teria conseguido. Foi algum tempo depois de ter completado meio século que ele começou a se fazer notar de forma intermitente. Nunca parei para meditar sobre nossa convivência e agora não posso mais ignorá-la. Devo confrontar os esgazeados olhos negros e o passo lerdo de fantasma antigo."



Lançamento - final de fevereiro - breve mais informações sobre datas de lançamento e Livrarias para adquirir a obra - mais informações no site Kazuá ou comigo pelo e-mail - barbaralia@gmail.com

Link para o site:

Thursday, January 11, 2018

As filhas de Manuela - Romance - 2017


Menção Honrosa no Prémio Fundação Eça de Queiroz - Portugal 2015.


Livro Poesia 2017



Link para o livro:

https://revistagueto.com/2017/03/22/uma-brasa-acesa-de-amor-e-morte/

Forasteira - Outubro 2016


A CADELA DE PLATÃO 


Eu sou a cadela de Platão
Só restos do banquete
Só o cheiro do amor
(o osso, o osso, o osso)
Voz de Diotima - eco singelo:
(é belo, é belo, é belo)
Não é belo lamber o chão
Fazer o amor virar lama
(sem cama, sem cama, sem cama)
Alguém arranque este amor até o siso
Nada mais vai brotar nas entranhas
Nas veias, na cava oca do coração
Este que acabei de atirar 
Ao mais amado cão

Bárbara Lia
Forasteira
Vidráguas/2016

Poesia falada



Para ouvir - clicar aqui

Pássaros Ruins #6 - Luciana Cañete (Curitiba)








POEMA PRA ANAS

O que é ver uma filha inerte? O que é um mãe à procura das sandálias da menina? A pequena esperando à porta, desenxuta e, no detalhe: a mãozinha delicada num trinco de metal.

O que é esse clarão que eu quase também vejo no meio da sala, da casa, no meio do mundo, da tempestade?
O que é um homem
que instala um para-raios
e não o aterra?

-O que é, senão,
a mão pesada de Deus a dar lições?-
Ana que deita pra sempre na frente
dos todos irmãos,
recém banhados.
Nem há coração pra ouvir
tanta chuva.

O que é, quando vem,
esse erro, esse raio,
que não volta atrás?
Que atravessa,
num egoísmo de destino,
o destino
de todos?

Nem sei,
nunca sabemos, vejo que existe pelo seu odor de enxofre e porque dele resta uma mãe que em dia de tempestade larga tudo,
senta num banquinho, calça sandálias de borracha,
junta as pernas e
se encurva.
até que volte o sol.

Para conhecer mais sobre o trabalho da poeta Luciana Cañete acesse:
http://deusdobravel.blogspot.com.br/

Cecília Vicuña - Chile





Sol en la edad




                         idade solidão



Cecilia Vicuña
Palavrar Mais
Editora Medusa
Tradução - Ricardo Corona

Maria Alice Bragança - Porto Alegre







Confidências
Quanto mais pensava
inútil
mais amava.
O desespero parecia
fazer com que o amor
se prolongasse.
Maria Alice Bragança
Quarto em quadro
Shogun editora e arte / 1986
página 15


Meu presente de amiga secreta do grupo "Mulherio", de uma amiga nada secreta que conheci no ano "Forasteira", 2016. Obrigada pela poesia. Ganhei o livro dela e o Móbile da Ana Santos (Patuá/2017).


Poda
É com pesar
que corto os braços da avenca
para fazê-la mais forte
Ana Santos

Friday, January 05, 2018

um poema para o ano que começa...




O Rio de Janeiro
é uma brasa acesa
de amor e morte

Iemanjá pranteia
o diabo goza
as estrelas gritam
as areias respiram
a dor e a glória

o Cristo quer
descascar a pedra
descer ao asfalto

sambar na quarta-feira
e em cinzas
diluir

Bárbara Lia
Uma brasa acesa de amor e morte
(gueto editorial)

fotografia - Lucas Landau

Saturday, December 23, 2017

As filhas de Manuela - Bárbara Lia


Fotografia - Paulo Matos





Esboço um sorriso para não demonstrar que uma parede ergueu-se e as dimensões foram varridas naquela tarde. Estou na antiga prisão no Forte Nossa Senhora dos Prazeres, na Ilha do Mel. Estou ouvindo o recado do homem que tombou em batalha. Manuela? Um nome guardado por quase dois séculos. Um recado que apago ao sair do monumento belo e as gaivotas trazem a certeza de que agora são livres todos os homens. Ou, ao menos, devem ser livres. Não há mais navios negreiros nem batalhas. A Fortaleza marca o passado e proclama a era de mares abertos. Ao menos aqui perto. Longe, os piratas seguem a saquear. Somália é um nome que lembra piratas modernos. Aqui tudo está deserto. Nenhum soldado a vigiar os canhões. Uma nuvem imensa passa acima com pressa. Hora de voltar para a pousada e comer aquele peixe maravilhoso com uma salada leve. Sei que hoje vou dormir sonhando com um homem que, antes de tombar para sempre, grava no tempo um recado para quem ama. Hora de lembrar que um tempo onde amor imprimia esta urgência de rastilho de pólvora, explosões, naufrágios, lenços brancos, fragatas despedaçadas, mulheres que esperaram - em vão -pelos seus amantes.

Bárbara Lia
As filhas de Manuela
(Triunfal/2017)
página 141