Sunday, September 17, 2017

"You may say I'm a dreamer / But I'm not the only one" John Lennon

"Imagine" só deveria ser cantada por crianças ou anarquistas. Ou - para não ser muito radical - por aqueles que quando recebem o pão da paz o corta ao meio e dá a quem é crucificado neste mundo... Ele não é o único sonhador, mas está implícita esta fala na canção: a convocação é para os sonhadores. Também pode assobiar a canção aqueles que dão as costas a este mundo sórdido, o mundo - esta putaria. "Imagine" da boca pra fora anula toda a poesia. Acho que John concordaria.

imagem - Wasim Pummarin

Friday, September 15, 2017

Teatro de Segunda - Curitiba Pulsa - Um ano de um projeto bem lindo.





(Parece que foi ontem, mas começou há um ano. Um lindo projeto dos dramaturgos; Marcelo Bourscheid, Don Correia e Eduardo Ramos)

**


É com muito orgulho que anunciamos o 12º evento do Teatro de Segunda. 
Mais de 800 pessoas já passaram pelo Ap neste último 1 ano de evento, para ler, ouvir, sentir, confraternizar, integrar e promover resistência e união, tão importante no momento atual em que vivemos. 

NOVIDADE: 
Para celebrar nosso 1º ano, convidamos dramaturgos para lerem seus próprios textos, em formato de cena breve com músicos tocando ao vivo!
Para completar a roda de leituras/cenas, abrimos ao público o envio de textos curtos de até 10 minutos, para sortearmos e também lerem na noite do evento.
Os textos podem ser enviados para: teatrodesegunda@hotmail.com

Convidem os amigos, venham celebrar o ano 1 do Teatro de Segunda!

Terá bolo de aniversário e comidinhas e bebidas à venda!
Ingresso de sempre: Traga sua bebida favorita!

17/09 - Homenagem - Carmen Silvia Presotto - Sampa e Poa

Tuesday, September 12, 2017

"Procura-me ali. Viva"

Vida 


Descruzo os dedos
os versos, o olhar
invento um acorde
percorro caminhos
linhas, rugas, vincos

toco os poros
mais expostos
colho os sonhos
mais ativos
acordo o vento
destampo o tempo
circulo o infinito
foram-se os muros
tiro a máscara
cá estamos, livres
...e menos sozinhos
saudade...
Eros és minha verdade!
Carmen Silvia Presotto



Creio nos sinais que o Universo aciona em nossa direção. Na noite do dia 10 eu publiquei este poema de Hilda Hilst no meu Facebook. O poema abaixo brilha como uma mensagem agora que ela (Carmen) não vive mais aqui. Como se o Universo já alertasse o desejo (dela) e certamente do próprio Universo. Devemos procurar os que amamos no que espelha a vida deles. Esta pequena sincronia que me faz ver tudo mais claro ora que passa aquele momento que doeu muito:  a notícia da morte da Carmen. E o último poema que ela colocou e este que eu coloquei antes de saber de sua partida é como um notícia. Aquilo que - quiçá - ela nos diria. Um canto à vida...


Não me procures ali
onde os vivos visitam
os chamados mortos.
Procura-me
dentro das grandes águas
nas praças
num fogo coração
entre cavalos, cães,
nos arrozais, no arroio
Ou junto aos pássaros
ou espelhada
num outro alguém,
subindo um duro caminho.
Pedra, semente, sal
passos da vida.
Procura-me ali.
Viva.
Hilda Hilst 

Carmen Silvia Presotto, dói demais te dizer adeus.

Carmen Silvia Presotto (1957-2017)
 Poeta, editora, autora de "Dobras do
Tempo", "Encaixes", "Postigos".


"Irmão do meu momento, quando eu morrer/ Uma coisa infinita também morre. É difícil dizê-lo:/ MORRE O AMOR DE UM POETA./ E isso é tanto, que o teu ouro não compra./ E tão raro, que o mínimo pedaço, de tão vasto/ não cabe no meu canto." Hilda Hilst.


Uma pessoa infinita estava morrendo e eu pressentia. Era esta a dor dentro de mim ontem e hoje e eu nem sabia. Achava que era só o cansaço mental que fazia tudo ruir dentro, esta sensibilidade minha que capta e eu nem sei o que capta, até saber. Eu soube. E dói este momento em que um fio se rompe pra sempre no mundo material e fica pela eternidade na imaterialidade das coisas que vivemos e fizemos juntas.
Mais de sete anos deste vínculo, uma epopeia feminina e muitas trocas. Carmen Silvia Presotto é uma mulher incrível, mãe avó, poeta, editora, amor de seu amor, amiga de tantas pessoas, uma pessoa incrível, e por estes caminhos da vida ela acabou por tornar-se editora de dois livros meus. 
Os que marcam a vida fixam as cenas desde a chegada. Tão nítido ela naquela manhã de sábado no Festipoa, ela tinha pressa, mas pegou meu contato. Nossa conversa começou ali e se estendeu e ficou como uma pequena guirlanda de flores delicadas esticada no céu entre Curitiba e Porto Alegre por sete longos anos. Estas coisas de mulheres que preservam seu destino de beleza e vão descartando as coisas espinhosas, as coisas poucas, os embates que não levam a nada. Carmen queria editar um livro meu, em plena copa do mundo de 2010 sou surpreendida com sua chegada . Lembro aquela conversa longa naquele ônibus de turismo - passeio em dia gélido - e, depois, jantamos no bar do Alemão. Eu não podia dar a ela o livro de poesia que ela me pedia naquele ano, eu tinha um romance - eu dizia. Sensível e ainda que não fosse como ela premeditara, ela abraçou "Constelação de Ossos" e o editou, com aquele entusiasmo peculiar. Pela primeira vez passei dias com ela em Porto Alegre. Ela sabia do meu jeito arredio desde sempre. Na última vez em sua casa ela disse que era meu jeito de me proteger. Sim, é. Eu não tinha a espontaneidade dela, dialogar com toda gente, falar de poesia noite e dia, publicar, criar um site, uma editora, virar o mundo. Eu estava na minha caverna, uma espécie de ermitã que ela acolheu e fez sentir inteira e plena como poucas pessoas me fazem sentir em ambientes desconhecidos. Era suave de flor e firme de aço. Era humana. Amava a família maravilhosa, a neta que foi a primeira pessoinha que me veio à mente há pouco quanto soube de sua partida. Doeu demais saber desta ruptura que não considero justa: que aquela garotinha não vai conviver com esta avó tão rara.
Há um ano estávamos totalmente mergulhadas em outro livro. Foi como um sopro no tsunami da vida, quando ranhuras surgiram em um diálogo com quem ia editar - Forasteira - e eu lembrei nosso final de semana de inverno, e lembrei que Carmen se abalara de Porto Alegre até aqui em busca de um livro de poesia e escrevi e disse: quer editar um livro de poesia? Eu tenho um agora. Fizemos no ritmo do momento dela, dentro da possibilidade e foi assim que ela me segredou algo e ficamos (sempre ficamos) certos de que o obstáculo será vencido. Nosso âmago de guerreira nubla toda possibilidade de derrotas. Tínhamos certeza de que tudo ficaria bem. Acho que é isto que chamam de fé. Uma espécie de construção em câmara lenta que depositou em minhas mãos um livro especial para mim: Forasteira. 
Lembro a gente ouvindo Bob Dylan no carro. Era outubro. Era primavera. Era um adeus e eu nem sabia. Lembro nossas últimas conversas, nosso último encontro. Os planos dela que ficam suspenso e a certeza de que não vai acabar nunca esta saudade e que as coisas que ela viveu comigo e com tantos poetas e amigos e os que ela amou e a amaram solidificam uma memória poética tão plena de - Encaixes - e tão cristalina como a gota clara de Vidráguas, que ora se converte em lágrima.
Uma lágrima no orvalho pra você, Carmen. Estou em estado de choque ainda, como quem não crê.

Sunday, September 10, 2017

Ser avó tem sido a melhor parte da vida...


(esboço de um poema para Laura)


quando você flor madura
e eu - memória
ouça mais estrelas
que pessoas
quando você flor feliz
quero estar por perto
só para ver a dança
da tua aura contagiante
como este riso de agora
quando você flor iluminada
e eu, quiçá, tua saudade
eu viverei nas linhas parcas
nos fragmentos do teu plasma
e em cada louro, Laura,
de uma vida salpicada de Amor
e vitoriosa, como teu nome
Bárbara Lia

Wednesday, August 16, 2017

As filhas de Manuela - Bárbara Lia










                                    lançamento em Peabiru - Casa da Cultura - com Maria Izabel Trivilin


As Filhas de Manuela
Bárbara Lia
148 páginas
Capa: Félix Nadar (1820-1910)
ISBN 978-856117566-5
Triunfal Gráfica e Editora (SP) 
Menção Honrosa na primeira edição
do Prémio Fundação Eça de Queiroz
(Portugal)

RS.30,00 + remessa

contato: barbaralia@gmail.com

As Filhas de Manuela. Romance. Realismo Mágico. 
Inicia em 1839 em plena Guerra dos Farrapos e segue até os dias atuais. 
O enredo acompanha a vida de todas as descendentes de Manuela, uma garota simples de Paranaguá que, ao encontrar um oficial da Armada Nacional, muda totalmente de direção a sua vida pacata em uma busca e esta busca pelo homem amado a levará ao encontro de alguém cruel. Este homem, rejeitado por Manuela, amaldiçoará Manuela e as futuras gerações. Esta maldição acrescentará dor e perdas e o adendo de levarem, todas as mulheres da estirpe de Manuela, uma sombra da cor do sangue. Como cada mulher viveu esta peculiaridade e os desdobramentos deste encontro de Manuela com o amor e o ódio vai definir os passos futuros em um círculo  de perdas e superações.

Saturday, August 12, 2017

um poema...





eu me permito errar
e me permito cair
em contradição
eu me permito dor
e me permito chão
e me permito ruínas
e me permito caos
eu me permito ser
quem se perde 
dentro de si
eu me permito gritar
e provocar os céus
com mil perguntas
eu me permito rasgar
cada fibra del cuore
para tecer uma flor
sangrada e livre
eu me permito amar
e acordar
como quem nasce
de novo
eu me permito flanar
entre o inferno
das noites a sós
e o sol
que me abre
as manhãs
eu me permito
ser inteira
sem medo
eu me permito cair
e levantar
nas madrugadas
para colher
as estrelas tontas
que despencam
em seu próprio céu
como eu

Bárbara Lia
Inverno de 2017

imagem - Francesca Woodman

Thursday, August 10, 2017

Forasteira no site "Toca a falar disso"





Sobre "Forasteira" no site "Toca a falar disso":



"Puro lirismo. É assim que pensamos Bárbara Lia, autora de Forasteira, ao abrir a primeira página do livro. A alma da poeta que traduz o inconformismo pela desumanidade e que também mergulha nos sentimentos mais íntimos, revela-se a cada estrofe.

Com uma identidade peculiar na escrita e uma personalidade marcante que fica bem pontuada em cada frase, a autora nos conduz por todos os caminhos que a visão da alma poética é capaz de levar. A inquietação infantil do mundo a descobrir, o florescer dos sentimentos, o compreender-se mulher na totalidade dos sentimentos e percepções, o entusiasmo pela vida e os dissabores pelas vivências que deixam marcas, são os reflexos que por entre as palavras que dançam nas páginas bem elaboradas, dessa menina-mulher.

Que fez a travessia pelo mundo e pelo tempo, sem perder a docilidade e o sonho de menina, mas ao mesmo tempo, acumulando no olhar, a experiência e as marcas de quem percebe o ser humano na sua mais dura vertente. Forasteira da vida e de si mesma, segue por vários caminhos, na arte da escrita e mantém inalterado o poder transformador de não se conformar com o feio, o distorcido, o desumano, seja na poesia ou na vivência, e revesti-lo de encanto , beleza e compaixão.

O Livro é o retrato fiel da alma da autora, relatado por Fernando Koproski no prefácio, traduzindo com perfeição o que encontramos na vivência poética de Bárbara Lia: filha de Florbela Espanca com Vinícius de Moraes. E isso já revela tudo.

Um abraço tropical"

DRIKKA INQUIT

link para o texto

Tuesday, August 08, 2017

As filhas de Manuela - Bárbara Lia



Para adquirir o romance "As Filhas de Manuela" 
contatar e-mail: barbaralia@gmail.com



Manuela
Grande Mar Redondo

Sobre mim passam, com a sua cacofonia,
os corvos em bando negro.

Sylvia Plath

Manuela não sabe de nada que acontece ao redor. Não sabe das expedições guarapuavanas que se atiraram na missão de domar os índios e conquistar aquele território. Os homens dão ordens para os cavalos pararem e ficam olhando aquela garota bela, queimada de sol. Manuela baixa o olhar. O intrépido Mauro
Risério adianta seu cavalo. Ele é filho de um dos homens da comitiva. Ele fica a dançar ao redor dela com seu cavalo. Ele a olha com seus olhos claros gélidos. Como quem quer invadir seus olhos tristes, ir andando com seu cavalo alma adentro como quem tem oitocentas perguntas. Manuela não move um músculo da face. Ele desce do cavalo e segura a garota pelos ombros. Manuela desmaia.

Bárbara Lia - As filhas de Manuela - Triunfal ed. - 2017
150 páginas
ISBN 978-856117566-5
R$.30,00

compras via e-mail: barbaralia@gmail.com

Saturday, August 05, 2017

fragmento: As filhas de Manuela




(..)conheci uma escritora triste que sempre fica na Livraria Ponte de Tábuas, tomando um cappuccino e escrevendo. Ela me vê. Conversamos telepaticamente. Ela diz que gostaria de ver Proust e não eu. Eu pergunto. Quem é Proust? Passo horas ouvindo sobre Proust. Ela o admira. E ela diz que adoraria que eu fosse Proust, pois eu poderia dizer se os escritos dela são Literatura ou desabafo. Poesia ou nada. E ela lê para mim e eu ouço e acho lindo. Ela diz que achar lindo não significa muito. Ela diz que as pessoas choram com propaganda de margarina e gostam de axé. Eu não sei bem o que é axé. Digo que meu avô ouve umas óperas belíssimas e que minha avó adora Chico Buarque. Ela sorri e diz: — Berço de ouro o teu, Mel. Eu sorrio. Nasci em berço de ouro. Sim. Eu nasci. Ela diz que tem nome de escritora: Virginia. As minhas tardes ganham nova alegria. Sento-me diante de Virginia e tenho aulas de Literatura. De vez em quando ela se queixa por eu não ser Proust, mas, com o tempo deixa de humilhar-me por causa de Proust e começa a ser mais amiga.

Bárbara Lia
As filhas de Manuela
página 133
Triunfal Ed. (2017)
ISBN 978-856117566-5




















contato - e-mail: barbaralia@gmail.com

Thursday, August 03, 2017

skyleros dermis: um diálogo com Paul Klee no site Mallarmargens




Há quase dois anos eu teço um diálogo com Paul Klee, mixando arte & dor. Klee morreu vítima da esclerodermia. Eu vi ressuscitar o vírus que veio morar no líquido cinza da minha medula, e o nome científico é - síndrome tardia da poliomielite - sofri dores físicas, fiquei impedida de andar em muitas ocasiões e consegui estabilizar minha saúde depois de uma romaria por meia dúzia de médicos... Já posso fazer de conta que isto não aconteceu comigo. Esta é minha especialidade: negar dor. No caminho desta dor, desde 2008 até aqui dei de cara com Klee. Dialoguei com ele, sua Arte, sua beleza. E quiçá um dia eu publique estes textos que flanam entre a revolta com a dor e a libertação possível que germina em toda espécie de Amor.
No carnaval encontrei um estudo científico e uma fotografia que me fez chorar, a realidade física de Klee diante da esclerodermia... Não sei se conseguirei amar mais um artista do que amo este homem, a beleza absurda de um ser. Ele era poeta, um grande poeta, alguns títulos de seus quadros são versos. 
Klee é inesgotável, eterno, terno, belíssimo...

Link para o texto:

http://www.mallarmargens.com/2017/08/skyleros-dermis-barbara-lia.html

Monday, July 17, 2017

um poema do livro "Forasteira"




Bárbara Lia

Frida! Frida! Frida!

"9 de novembro de 1951
Menino-amor. Ciência exata.
vontade de resistir vivendo
alegria saudável. gratidão infinita
Olhos nas mãos e
tato no olhar. Limpeza
e maciez de fruta. Enorme
coluna vertebral que é
base para toda a estrutura
humana. Um dia veremos, um dia
aprenderemos. Há sempre coisas
novas. Sempre ligadas à
antiga existência.
Alado - Meu Diego meu
amor de milhares de anos.
Sadga. Yrenáica
Frida.
DIEGO"


Maryam Mirzakhani


A liturgia da louça.

O momento ficou imantado por uma aura sagrada. Aquilo que detestas transmuda com o barulho cadenciado de uma torneira mal aberta que te embala com um som de água arrancada, que sai à revelia e canta como era o canto dos escravos, algo melódico e triste. E você lembra Maryam Mirzakhani a moça bonita que morreu de câncer aos quarenta, depois de arrebatar a Medalha Fields - o prêmio maior da matemática. E seus olhos marejaram diante daquele rosto que esconde o futuro, aquele olhar de quem sabe. Já não importa se a tarefa é sempre fardo, ela vira uma liturgia. 
Câncer nos seios é esta chaga que acossa pessoas que amo, e a dor de ver a feminina flor aritmética partir. Rasgo em tiras minha rebeldia e me ponho a amar o cotidiano simples e penso naquelas estratégias adolescentes, de promessas e trocas e pedidos. Opto por amar o que antes me irritava, sem pedir nada em troca, como um tributo a quem não pode mais ouvir o som da água na pia pela manhã, a dança dos pratos entre seus dedos, a espuma de detergente, o roçar dos lábios do filho que sai para a rotina enquanto o céu azul pálido lá fora lambe a vidraça. 
Vou criar uma menina linda neste livro que teço, ela será Maryam e terá estes cabelos curtos e estes olhos grandes de quem enxerga equações nas estrelas. Adeus Maryam... E ao te dar adeus abro uma página onde diz que você queria ser escritora quando era menina... E isto me aproxima um pouco da tua mente que dançou entre dois momentos, nossa mente matemática, e isto me dá a certeza de que vou mesmo criar uma menina-você como homenagem, fique em paz e obrigada.


Saturday, July 15, 2017

héctor viel temperley


"Yo te cielo" - Frida Kahlo

Frida inventou um novo verbo para dizer “eu te amo”:
Yo te cielo.
Rimbaud queria reinventar o amor:
L'amour est à réinventer.
quiçá o paraíso seja - reinventar o amar – 
amor não é azul e nem é rosa: é invisível
talvez chegue até nós pela derme, olfato
ou, voz... quiçá não seja nada disto
ele é táctil e quem tateia é a alma
tem o desejo, que confundem com amor
o desejo é o desejo é o desejo
ele é animal, primitivo, eco do grito
que grita em outro corpo...
O Amor é o inominável 
fica entre o medo e o desejo
e é a fenda do abismo
cielo de Frida

Bárbara Lia
Sol de Coyoacán
21 gramas - artesanal 





Wednesday, July 12, 2017

Frida e eu

Com elegância vivemos nossos amores e desejos e seguimos, como as palomas que não se preocupam com o risco de fogo que fica por onde se passa. Este risco que dilui suave como lágrima de deusas etéreas. Temos boca para beijos e temos o olhar negro de graúna, ou da jabuticaba, ou de mulheres que levam a amplidão das noites coaguladas dentro de um espaço onde viver pode doer, mas ao mesmo tempo, expande a beleza de tocar as rosas escondidas nos desertos densos onde nada pode durar mais que quatro horas sem secar ao sol.
Em alguns dias não queremos nada ou ninguém ao redor, então enleamos o silêncio como um rito ao enlear nossos xales em nossos ombros. Ancoramos no espaço onde existimos únicas e onde nem o amado mais amado penetra. Neste lugar onde ficamos com o invisível e nos ausentamos para tocar alguma aurora reticente onde apenas moram as mulheres de Sol.

Temos cabeça, mãos, pés e coração. Qual no quadro de Klee podemos nos desdobrar e romper-nos e espalhar-nos pelas superfícies. Parecemos bonecas dos natais antigos às quais desmembrávamos curiosas para saber mais, seguimos desmembrando-nos para depois juntar-nos. Mesmo nossa Arte espalha-se em fragmentos. Minha Poesia – toda ela – é fragmento meu. Para formar um quadro inteiro com meu corpo e coração e mãos e lábios, há que se ler todos os meus versos. Tuas telas são pequenas tiras de uma história e para saber tudo é preciso colocá-las em sequencia para ler tua vida e saber tudo. Não se sabe Frida a partir de um único quadro. 

Bárbara Lia
(de um livro em construção)

 Has a head hand foot and heart - Paul Klee

Interestelar




ouve  o barulho na estante de brinquedos do teu quarto?
é meu estardalhaço antigo
já vivi mais de três décadas e escrevo um tosco verso
te acordo na madrugada com minha insônia, no cio

tua mão toca a minha em calor fugidio nas escadas do metrô
caminhas no século vinte e um e eu no século passado
na tarde que visitei Sampa e meu primeiro amor
você nem existia, quiçá você fosse luz líquida
garoa rebelde que valsava em nossas bocas
ménage a trois estranho
somos vento
tocando um ao outro
somos aquela doçura
que enleia o coração
por segundos
- sorrimos -
pensamos em levezas
- seguimos –
e esta revoada de pássaros na ilha em um inverno
ela é o que mais nos aproxima de tudo que sei
do tempo da espera
amor - alturas - doce agonia
eu nem te via e sabia deste dia
este em que te sei - carne aura
beleza crua
menino homem que sacode
as entranhas do tempo
para morar em meus dias
antes
agora
vida afora
Bárbara Lia





Monday, July 10, 2017

Respirar - Frida



Meu corpo lembra Frida Kahlo. A marca que impede uma alma livre de ser plena, correr ao encontro de tudo. O congelamento do corpo em uma cama, em um espaço cerzido. Ela - Frida - não aceitou e pintou sua realidade com traços de luz/fogo/alfazema/lágrima e amou de um amor irrepreensível e nunca aceitou que o mundo a taxasse de menor ou pequena... Frida sussurra no meu travesseiro a ladainha da rebeldia: Ergue este queixo bonito e pisa as flores da tua escolha, e ama e ama até forjar uma chuva de colibris acima dos abismos. Frida, Frida... Ainda estamos colhendo estas aves azuis com nossas mãos pequenas. Tua liberdade era estrela bastarda - eterna fagulha no céu - eu a agarro como quem monta uma égua dilacerada, pretendendo com ela atravessar a agonia do viver. E quando meu corpo esquece que é teu corpo eu contemplo este duplo meu e a minha voz interior diz claramente - Sou Frida à medula.

Bárbara Lia in Respirar/2014

Frida Kahlo, c.1940. Photo by Ivan Dmitri

Sunday, July 09, 2017

Frida! Frida! Frida!


Frida Kahlo, Mi vestido cuelga aquí, 1933-1938




Frida Kahlo - What the Water Gave Me




***

O céu não dormia e tudo gangrenava como os pés de Frida Kahlo. Frida na banheira. Frida a contemplar os pés sangrando e vendo vestidos na neve e Diego caindo de prédios... Vida que se encarcera em arte fica surreal e mágica, mas fica também dolorida de cores e verbos e de metáforas ensandecidas de quem vive acima - Frida, Lorca, tantos, tantos, tantos que compreendiam Deus, os astros, a música, a lírica, os segredos todos, estes, estes se chocaram com New York.
Bárbara Lia

Fragmento do conto - Sr. New York - publicado no Jornal Rascunho, nem lembro mais em que ano...


Saturday, July 08, 2017

Diário de poeta

Volto a usar o blog como uma espécie de diário literário. Notícias dos livros e dos meus projetos. As manhãs sempre despontam com ideias novas. Tudo clareia com o dia. Hoje pensei nisto: enviar exemplares de "As filhas de Manuela" para Paranaguá. É lá que inicia e termina o enredo de - As filhas de Manuela. Grande Mar Redondo, meu livro é um círculo. A vida é. Este é o meu terceiro romance editado. Uma saga poética com apenas mulheres como protagonistas. Quem desejar adquirir o romance, entrar em contato via e-mail é barbaralia@gmail.com. A foto é de Tê Caroli.