Wednesday, October 22, 2008

Ocean 1212-W



p/Ia Santanché


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Point Shirley, a vida protegida feito um navio em uma garrafa - um mito branco e obsoleto - assim descreveria ela um dia esta passagem granulada de ternura, de um mar onde se recolhe conchas para um pai que se adora. Winthrop. Um gato chamado Mowgli, um irmão chamado Warren. Sylvia e seu elemento primeiro - a água. O mar e a pacífica entrada no mundo. Antes do peso dos pés gangrenados de Otho puxarem-na para o mar profundo da inconformidade. Lavar com o sal marinho o sorriso expandido. Secar este sal na pele até doer mais que ferroada de abelha. Princesa que não chegou a ser rainha. Concha que matou a pérola. Um caminho estendido de areias e oceano. Um pai a desvendar a vida social das abelhas e a enclausurar a abelha pequena em uma caixa de interrogação:
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tenho um eu a recuperar, uma rainha
estará ela morta, estará dormindo?
onde tem ela andado,
com seu corpo vermelho-leão, suas asas de vidro?
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Este primeiro rito de paz sob as asas dos avós maternos, os Schobers.
Em 1962, quando a BBC encomendou um pequeno trecho biográfico para Sylvia, ela o entitulou Ocean 1212-W. Um número que ela jamais esqueceu, o número do telefone dos avós. Mas, não dava mais para discar o número, adentrar a redoma-garrafa, voltar ao mar da infância, recolher conchas e abraçar Mowgli. Ocean 1212-W, o fio do telefone um cordão umbilical, uma chamada jamais atendida por uma menina, esta que pula e sorri diante de um oceano inumerável.

BÁRBARA LIA no caminho com SYLVIA PLATH
Sylvia Plath (27-10-1932//11-02-1963)